Lagar de Azeite

Pela sua situação e características geográficas, Gondar encontra-se englobado numa vasta área de civilização mediterrânica, a que andam ligados dois grandes elementos naturais – a oliveira e a vinha. Estes dois produtos foram importantes para toda a civilização ocidental, importância essa que ainda hoje não perdeu o seu valor, apesar de o azeite, o mais importante óleo alimentar, ter sido relegado para segundo plano na maioria dos países europeus. O azeite tem uma importância que vem de há séculos, sendo um produto milenário à volta do qual se desenvolveram as mais diferentes civilizações, actividades económicas, gastronomia e até a medicina popular.

O Museu Rural do Marão, situado em Gondar está instalado no antigo Engenho de Azeite existente na Casa do Encontro, Vila Seca, fundado nos anos 30 pelo Doutor Álvaro Pereira de Vasconcelos, com o propósito de vir a servir as quintas pertencentes à família Teixeira de Pascoaes, a saber: Quinta do Encontro; Quinta da Cancela; Quinta do Penedo do Corno; Quinta de Mateus; Quinta das Ribeiras; Quinta da Ovelhinha e Quinta do Souto.

A moagem e o fabrico de azeite nestas quintas, durante os anos 40 e meados da década de 50, estavam a cargo do Engenheiro Adão Dinis da Silva, residente e natural de Bustelo. Para além do Engenheiro Adão, faziam parte desta tarefa, dois/três ajudantes e os proprietários da azeitona para moer.

Com o passar dos anos, o Engenheiro Adão passou o testemunho para o Engenheiro Alexandre Joaquim da Rocha, então caseiro na Quinta do Encontro. Mesmo desempenhando as mesmas funções que o antigo Engenheiro, o seu percurso nesta função foi menor, terminando no ano de 1958. A findar essa década, Urbano da Silva assume o cargo de Engenheiro. Sucede-lhe o ajudante Luís de Carvalho, mais conhecido como Luís Gesta, que já era criado nesta Casa. Com este termina a longa sucessão dos Engenheiros, em meados dos anos 80.

Este lagar é o testemunho fiel do fabrico do azeite sem recurso a máquinas, mantendo toda a tradicionalidade, em que a força motriz era a força animal, no entanto, a partir da década de 60, foi transformado para eléctrico. Trata-se de um lagar de tipo comunitário, que trabalhava à maquia, o que significa que, qualquer pessoa que tivesse azeitona poderia trazê-la a este lagar e transformá-la (deixando em compensação uma parcela do azeite produzido ao dono do lagar).

Neste lagar podemos identificar três espaços distintos: local onde o animal com a sua força fazia o engenho andar; local onde a azeitona era depositada e o local onde a massa da azeitona era prensada.

O processo de moagem iniciava-se com a colocação de 4 cestos de verga (150kg) de azeitona no pio, que eram deitados por uma tremonha que estava situada no primeiro andar do Engenho. Após o árduo trabalho da vaca que accionava o engenho da moenda durante várias horas, as azeitonas eram moídas até constituírem uma pasta. O pavimento do lagar destinado a este trabalho era de terra batida para facilitar a tarefa do animal. Após esta acção, o Engenheiro verificava se a massa estava preparada para o próximo passo. Para tal, este mergulhava uma enxada na massa e de seguida raspava-a contra a mó para ver se esta aderia ou não. Aderindo, esta era retirada e levada em gamelas para ser enseirada.  

Após este acto do Engenheiro, a pedido dos proprietários eram paradas as mós e era retirado o azeite virgem, no sentido original da expressão, isto é, aquele primeiro azeite que se obtinha da massa da azeitona, mesmo antes da primeira prensagem.

A azeitona era transportada do pio para a prensa por duas escodelas de chapa/zinco. As seiras deviam levar dois tornos em madeira para facilitar o seu enchimento, depois de colocados estes tornos, as seiras eram colocadas num suporte onde levavam a massa de azeitona. Normalmente, cada seira levava duas escodelas. Seguia-se para a prensa. O número de seiras podia variar entre 9 a 12, depois de estarem todas colocadas na prensa dava-se início ao aperto manual. Este era um serviço muito cuidadoso, era necessário que as seiras fossem apertadas muito lentamente para que o azeite pudesse ser extraído.

Devemos salientar que, quando as seiras cheias não eram suficientes o engenheiro colocava seiras já prensadas para que assim fosse preenchido o volume necessário para o aperto das mesmas.

Do lado direito da prensa só poderiam estar quatro pessoas, quando se esgotasse o esforço prensava-se do outro lado, onde se fazia o aperto máximo. Depois deste aperto máximo as seiras ficavam trinta minutos a escorrer, para passar para a caldeação.

Nesta operação era utilizada a caldeira do lagar, onde era aquecida a água necessária. Depois de “quebrada” e remexida a massa do interior das seiras, estas eram abertas, e era-lhes colocado uns paus ao alto que as mantinham abertas, e de seguida era-lhes deitada água bem quente. Esta água quente fluidificava a massa de azeitona que já havia sido prensada, e ao mesmo tempo iria permitir o desprender de azeite que esta massa ainda continha. Esta operação permitia que a vara fosse novamente accionada, por forma a realizar novo “aperto”. Findo este tempo, era colocada água quente à volta das seiras, para que o azeite que estivesse fora também pudesse escorrer.

O azeite ia escorrendo para o funil e caía no depósito, seguidamente, no tesouro era mexido com uma jibardeira. Aqui, o Engenheiro verificava se o azeite se encontrava totalmente limpo, para tal deitava água quente (o bagaço era utilizado como combustível para aquecer a água) no tesouro, controlando a saída do azeite Durante essa saída do azeite, as borras que ficariam desse processo eram conduzidas para os dois pios existentes, sendo que estas borras pertenciam sempre ao caseiro. O azeite era analisado por uma pessoa de confiança da quinta, que neste caso seria o Sr. Álvaro Teixeira (criado). Terminado o processo, este seria vasilhado.

Contudo, quando a sangra (restos do azeite) saía para o exterior através de um canal de pedra, com uma distância de mais ou menos 40 metros, as pessoas mais pobres da aldeia, faziam o aproveitamento destes restos. Para isso, estas pessoas depois de apanharem estes restos, levavam-no para casa e num pote grande ferviam-no, para que assim o azeite viesse ao de cima, já limpo e pronto para ser utilizado na comida.

A repartição do azeite era feito sempre da mesma forma, ou seja, o azeite das quintas era traçado, isto é, três partes para o patrão e uma para o caseiro. Em relação aos particulares, estes pagavam em maquias e normalmente, vendiam-se entre 20 a 27 canadas de azeite.

Durante este trabalho do fabrico de azeite, todas as pessoas pernoitavam no Engenho, para tal, existiam duas preguiceiras, onde na parte superior descansava o Engenheiro e na parte inferior descansavam os restantes.

O primeiro andar do Engenho era dividido em sete partes, ou seja, sete caseiros para sete espaços.

Durante esta longa estadia no Engenho, o Doutor Álvaro Pereira de Vasconcelos não autorizava almoços/jantares ou até mesmo petiscadas, bem como, qualquer objecto que contivesse petróleo, daí as candeias ser de azeite. Este azeite para a candeia era retirado antes de ser vasilhado e entregue aos clientes.

Os animais também necessitavam de alimento e de descanso, para tal, existia um estaleiro e uma argola pregada na parede, onde estes se podiam alimentar.

Na época carnavalesca, o primeiro andar do Engenho era palco de grandes comédias, teatros e entremez (pequenas representações).

 

 

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