Barro Negro

        “Freguesia marcadamente rural, Gondar tem, por esse facto, um artesanato rico e variado, ligado fundamentalmente às actividades agrícolas.
A olaria do barro negro representa, porém, o que de mais emblemático há no artesanato da freguesia de Gondar. A origem da arte perde-se no tempo, mas sabe-se que trabalhar o barro já foi uma actividade que ocupou muitos braços na freguesia.

Em meados do século XX a olaria rústica de Gondar ainda tinha 18 rodas a trabalhar. Depois, em meados dos anos oitenta daquele século, quase que se extinguiu.

Entretanto, um aturado trabalho de recuperação e incentivo desenvolvido localmente fez renascer a arte de trabalhar o barro negro, voltando a surgir as 12 peças tradicionalmente concebidas: panela, púcaro, assador, fundidor de oiro, caçoila, cinzeiro, vinagreira, chocolateira… ou a pingadeira, o pote e a bilha de água. Na freguesia, no lugar de Vila Seca, existe mesmo a Casa do Oleiro, com oficina e uma pequena secção museológica.

Retomada a arte, mantêm-se os processos tradicionais de confecção: “(…) depois da extracção da barreira e de secar, o barro é moído na pia com a ajuda do pico; em seguida, é crivado para a gamela e amassado, num acto em tudo semelhante ao amassar do pão. Forma-se, assim, uma bola de argila pronta a ser modelada. Depois de culdrado, ou seja, de lhe ser retirada qualquer impureza, o barro é centrado no tampo da roda e o oleiro começa a modelar.

 

 Na olaria tradicional, era usada a “roda baixa”, com apenas 30 centímetros de altura e 63 de diâmetro – o tipo mais rudimentar que se conhece nos nossos dias. O impulso para fazer girar a roda dava-o o artesão com a mão esquerda no sentido da rotação dos ponteiros do relógio. Para ajudar na modelação, dispunha de vários utensílios, alguns fabricados por ele próprio, como os fanadoiros e o esquinante. Também usava trapos que molhava na água, no agueiro.

Nesta arte, cada utensílio tem a sua função. Os trapos usam-se durante quase todo o processo de modelação, enquanto que o esquinante serve para talhar o fundo da peça, retirando-lhe o barro em excesso; os fanadoiros servem tanto para modelar como para fazer a decoração. Fundamental na modelação é o movimento do conjunto das duas mãos, em que os dedos que estão por dentro da peça andam em paralelo com os que estão por fora.
À modelação segue-se a decoração. A gramática decorativa desta olaria é bastante simples: usa-se o ‘picado’, pequenos pontos feitos por punção com o fanadoiro e as linhas incisas, em meandros, sem uma orientação pré-definida, com semelhança nas cerâmicas medievais.

 
 

 

Depois de modeladas e decoradas, as peças são postas a secar durante dias e, posteriormente, cozidas. O tipo de forno usado é a soenga.

Trata-se de uma cova circular, aberta no solo, onde são colocadas directamente as cerâmicas.

 

 No processo de cozedura desenrola-se em três fases: a pré-cozedura, que se destina a retirar parte da água ainda existente nas peças; a cozedura, que atinge temperaturas da ordem dos 800 a 900 graus e a pós-cozedura que proporciona um arrefecimento em atmosfera redutora”.

 

Fonte: http://www.jf-gondar.pt/default.asp  APUD:  PORTELA, Helena – O barro negro de Gondar. Amarante: Magazine nr. 28, pp. 21 e 22.

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